Última alteração: 2012-07-25
Resumo
PASSOS, N.F. (*); PALMIERI, M.W.R.
Eixo Temático: Psicologia e Educação
Palavras-Chave: Cooperação; Competição; Jogos Cooperativos; Educação Infantil.
Introdução
Estudos científicos que se propõem a investigar o universo motivacional das crenças e valores entre crianças, adolescentes e professores atualmente, têm demonstrado que, na maioria dos contextos escolares, os professores têm orientado seus alunos a competirem entre si ou a serem individualistas (Branco, 2003; Johnson & Johnson, 1989; Palmieri, 2003; Salomão, 2001).
Essa orientação é geralmente implícita, ocorrendo poucas vezes por meio de incentivo direto do professor, já que suas atitudes (na sala de aula ou em outros espaços da escola) são orientadas pelas concepções de mundo, e em especial por suas crenças, valores e orientações para objetivos (Branco & Valsiner, 1997). Desta forma, podemos dizer que o professor canaliza as suas práticas educativas, a partir de suas culturas coletiva e pessoal (Valsiner, 1994), as quais geram conseqüências sobre o desenvolvimento dos alunos em suas múltiplas dimensões – cognição, linguagem, afeto, socialização e até mesmo o desenvolvimento do self (Branco, 2006).
O mesmo se aplica às práticas, interações e relações vivenciadas em outros contextos de desenvolvimento como a família, a escola, o grupo de pares, etc., visto que é fundamentalmente pela participação em práticas sociais e dinâmicas interativas, caracterizadas por determinada qualidade específica preponderante (como competição, desprezo, opressão, ou então, ajuda, respeito, e cooperação) é que se dá o desenvolvimento da criança, do adolescente e mesmo do adulto em determinadas trajetórias, em contraposição a outras trajetórias possíveis (Rogoff, 2005; Valsiner, 1994).
Sabemos que o papel da escola está diretamente relacionado à promoção de interações, as quais são expressas em variadas dimensões e articuladas de forma processual e aberta à transformação e, portanto, ao desenvolvimento. Cabe à escola não somente favorecer uma participação ativa da criança em atividades específicas, mas também, constituir-se enquanto um contexto significativo para todos os que dela participam principalmente a criança (Carvalho, 2000).
Para o desenvolvimento do trabalho educativo com crianças de quatro a seis anos, o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (Brasil, 1998), aponta em uma de suas diretrizes a promoção de interações criança-criança para favorecer a troca de idéias, oportunidade de expressão, de contato com outras vivências e a construção conjunta de conhecimentos e habilidades sociais. Tal Referencial, de forma compatível com a literatura especializada em psicologia do desenvolvimento, aponta a cooperação como condição necessária para o desenvolvimento da criança nesta faixa etária, configurando-se como o principal tipo de interação a ser estimulado e promovido na educação infantil.
No universo infantil, as brincadeiras coletivas expressam apropriações de conteúdos diferentes daqueles presentes numa situação individual (Porto, 2002). Jogar é uma atividade lúdica de extrema importância para o desenvolvimento humano, na medida em que a criança pode transformar e produzir novos significados (Zanella & Andrada, 2002), uma vez que o jogo estimula a criança a desenvolver sua autonomia, a compreender as regras sociais e a construir significados acerca do mundo (Furtado, 2008).
Uma das práticas educativas que a escola pode lançar mão para promover interações cooperativas são os jogos cooperativos. De acordo com Brotto (2000) os jogos cooperativos nas escolas asseguram que o resultado não se dê sempre nos termos do binômio vencedor/perdedor e promovem experiências reais de cooperação, por serem essenciais na transmissão de valores sociais.
No jogo, o confronto entre adversários é eliminado e os participantes passam a jogar uns com os outros e não uns contra outros, visando o alcance de um objetivo comum. Disto resulta, a relevância social das instituições educacionais: preparar o aluno para levar o exercício dos jogos cooperativos e da cooperação para além do campo de jogo, da sala de aula e da escola, o que permitirá aos educadores a implementação de ações e transformações que se fazem necessárias ao sucesso dos processos de ensino-aprendizagem.
Soler (2003) defende que a educação infantil, em especial, é o melhor momento para que a criança pequena entre em contato com os jogos cooperativos, porque ela ainda foi pouco exposta à competição. Para esse autor, desde o início do ingresso na escola de educação infantil, a criança passa a ser avaliada por medidas de desempenho, momento em que se instaura uma separação por habilidade entre os mais aptos e os menos aptos.
Por estas razões, acredita-se que a prática dos jogos cooperativos se apresenta como um recurso ou alternativa educativa promissora para analisar o processo construtivo de socialização entre professores e alunos inseridos em espaços educacionais infantis que tem por base um contexto heterogêneo e dinâmico, ancorado em diferentes aspectos relativos à interdependência humana, aí convivendo, em princípio, orientações múltiplas e diversificadas.
Objetivo
O objetivo da presente pesquisa foi reunir material teórico sobre os jogos cooperativos como promotores de cooperação na educação infantil, a partir de um levantamento bibliográfico em bases de dados científicos da rede internet (nacional e internacional) para identificar artigos, teses e dissertações ou outros tipos de publicações disponibilizados sobre o tema. De igual modo, relacionar o tipo de produção existente e suas respectivas bases de dados para organizar um acervo bibliográfico sobre o tema em questão.
Método
O estudo foi desenvolvido no Centro de Ciências Biológicas, Departamento de Psicologia Social e Institucional, da Universidade Estadual de Londrina-PR. Realizou-se uma pesquisa bibliográfica em bases de dados científicos da rede internet, em nível nacional e internacional, para buscar artigos, teses, dissertações, etc. sobre a temática em foco. Através das palavras-chave “jogos cooperativos”; “cooperação”; “competição” e “educação infantil”, as bases de dados consultadas foram as seguintes: Google Acadêmico; Revista Jogos Cooperativos; Scielo; Redalyc; Caderno PDE-PR 2008/2009; Portal da Capes; Domínio Público e Pepsic.
Através da consulta nessas bases de dados, um acervo bibliográfico foi organizado, a partir da leitura do material e de registro em fichas de leitura, as quais foram elaboradas para esse fim. As fichas de leitura – contendo informações selecionadas pelas pesquisadoras – abrangiam os seguintes dados dos materiais encontrados: título; ano; base de dados; tipo de bibliografia (ex: monografia, artigo, dissertação, etc.); procedência (nacional ou internacional); autoria; resumo; tipo de periódico (se teórico e/ou empírico); o tipo de publicação (ex: Artigo de Revista; “The Constructivist”; ISSN 1091-4972) e o nível de ensino (ensino infantil; ensino fundamental ou médio). Informações específicas sobre o conteúdo dos materiais também foram registradas, sendo elas: os principais pontos de discussão dos textos, os quais geralmente se referiam a definição de jogos cooperativos; definição dos conceitos de cooperação e de competição. Por último, registrou-se os principais autores citados nas publicações, tomando o cuidado de relacionar se estes estavam contemplados na relação de publicações da pesquisa.
Para realizar a organização das fichas de leitura, foi criado um Código de Registro Bibliográfico (CRB), considerando o ano de publicação, a quantidade de vezes que esta se apresentava, o tipo de publicação e a nacionalidade. Assim, por exemplo, a primeira informação se referia ao tipo de publicação, o qual aparecia abreviado (caso fosse monografia era representada pela letra “m”, se fosse artigo de revista “a.r”, se fosse artigo de congresso “a.c” e assim por diante frente aos demais itens do tipo de publicação.
A informação que se seguia no CRB era se o tipo de publicação correspondia às categorias internacional ou nacional, abreviadas respectivamente pela inicia da palavra (“i” ou “n”). Registrava-se ainda, o ano de publicação, representado pelo número decimal, por exemplo, se o ano era 2006, a ficha registrava o número “06”. Neste caso, o ano de publicação acompanhava a quantidade de publicações feitas naquele ano como, por exemplo, se fosse a segunda vez que aparecia a publicação no ano 06 esta era acompanhada pelo número 2 e assim por diante. Esse número era apresentado antes do ano separado por um hífen do restante do código. Assim, se a bibliografia encontrada fosse um artigo nacional do ano de 2006 e era a terceira vez que esse ano aparecia nos dados, então o código final foi ‘a.r.n-3 06’.
Para facilitar a apresentação dos resultados obtidos, as informações foram dispostas em figuras (1 e 2), contendo o conjunto das informações acima mencionadas. Os resultados serão apresentados a seguir.
Resultados
A partir das fichas de leitura possibilitou-se registrar e organizar as informações dos documentos encontrados durante a pesquisa bibliográfica. O total da busca totalizou noventa e sete documentos fichados e analisados. A grande maioria das publicações localizadas, 83%, é nacional. Enquanto o restante, 17%, é internacional.
A data mais antiga de publicação encontrada é de 1981 do autor Terry Orlick intitulada “Positive Socialization via Cooperative Games”. Orlick é conhecido como um dos pioneiros da temática dos jogos cooperativos e começa a ganhar visibilidade justamente por volta da década de 80. De 1981 até o ano de 2000 foram localizados cinco documentos relativos aos anos de 1994, 1996, 1998, 1999 e 2000. De 2001 a 2005 localizou-se vinte e oito publicações. De 2006 até 2011 – data que se iniciou e concluiu a busca bibliográfica – há sessenta e seis publicações. A figura 1 demonstra esses dados, considerando as publicações encontradas da década de 90 em diante.
Nota-se que em relação ao total de periódicos encontrados nas bases de pesquisa, há uma produção concentrada nos anos de 2007, 2008 e 2009, com 12%, 15% e 17%, respectivamente, percentuais estes que somam 44% do total. Em seguida aparecem os anos de 2005 e 2006 com 8%, 2001 e 2002 com 7%, 2010 com 6%, 2003 com 4%, 2004 e 2011 com 2%. Os anos de 1994, 1996, 1998, 1999 e 2000 obtiveram 1% cada.
Das bibliografias localizadas que mencionam os jogos cooperativos somam 75% do acervo. Enquanto 15% destes mencionam apenas o conceito de cooperação e 10% o assunto foca somente o tema da Educação Infantil.
FIGURA 1: Percentual de Publicações ao Ano
Os autores internacionais mais citados são: Carlos Velázquez Callado; Deacove; Deustch; DeVries; Guilhermo Brown; Kamii; Kishimoto; Alfie Kohn; Henrique Maturana; e Terry Orlick. Desses autores, encontra-se um capítulo de livro de Callado e um artigo de Orlick dentre os documentos localizados. Quanto aos autores nacionais mais citados, estão Fábio Otuzi Brotto, Reinaldo Soler, Marcos Miranda Correia e Marcos Almeida. Dentre estes últimos, há dois artigos de Almeida no acervo da pesquisa, uma dissertação de Brotto e um artigo de revista de Correia.
Periódicos que descrevem trabalhos empíricos caracterizam a maioria das publicações encontradas (60%). Já trabalhos de natureza teórica apresentam 40% do total. Outra característica das publicações foi identificar o objeto de pesquisa no caso dos trabalhos empíricos e o objeto de aplicação das teorias no caso dos teóricos e se estes eram para as etapas de Educação Infantil; Educação Fundamental e Média; Educação Infantil, Fundamental e Média. Os trabalhos do acervo caracterizam, em sua maioria, aplicados à Educação Fundamental e Média com 38% de publicações voltadas para essa área. Em seguida está a Educação em geral, que se caracteriza pelas três etapas do sistema educacional, com 23% e a Educação Infantil com 21%. Alguns trabalhos não se encaixavam nessas categorias e então, foram descritos como “Outros”, os quais representam 18% dos trabalhos, como exemplo: cooperação no trabalho, pesquisa com os docentes na escola, desenvolvimento cooperativo de jogos de computador, pesquisa aplicada em adultos e idosos, entre outros.
Em relação aos tipos de publicações foram encontrados trabalhados em diversos periódicos: Cadernos PDE-PR (19%); Dissertações (13%); Artigos de Revista Científica (39%); Artigos de Congressos (16%); Monografias (7%); Trabalhos de Conclusão de Curso (1%); Artigos buscados em site (2%), Capítulos de livro (1%) e Apostilas (2%). A relação entre as bases de dados e o tipo de publicação se encontra demonstrada na figura 2.
FIGURA 2 – Relação entre as bases de dados e o tipo específico de publicação.
A figura 2 mostra que o Caderno de PDE-PR forneceu todos os artigos do Plano, enquanto os artigos de revistas foram encontrados no Google Acadêmico, no Pepsic, no Redalyc e no Scielo. Já os artigos de congressos localizaram-se nas mesmas bases de dados dos artigos de revistas, exceto o Redalyc. No Domínio Público, no Google Acadêmico e no Portal da Capes encontrou-se as dissertações. Os artigos de site, as apostilas, o capítulo de livro, as monografias, e o trabalho de iniciação científica foram todos localizados através do Google Acadêmico.
Quanto aos Cadernos de PDE do Paraná foram localizadas dezoito publicações. A área de conhecimento que realizou os trabalhos foram todas de Educação Física e todos com a temática dos jogos cooperativos. Os anos dos Cadernos são de 2007 e 2008, e essas datas correspondem ao ano de participação dos autores envolvidos na capacitação, logo, não significa que os trabalhos foram realizados necessariamente nessas datas, porém esse foi o critério adotado na pesquisa para a fonte de dados dos Cadernos PDE. Há três universidades com o maior número de contribuições, são elas: Universidade Estadual de Maringá, Universidade Estadual do Oeste do Paraná e Universidade Estadual de Ponta Grossa.
As dissertações totalizam-se em treze publicações, são todas nacionais e apenas uma não é sobre jogos cooperativos. A dissertação mais antiga encontrada, data do ano de 1999 e é de Fábio Brotto, autor muito citado nas publicações sobre jogos cooperativos. As áreas de conhecimento das dissertações são: Educação, Educação Física, Estatística, Informática, Psicologia da Educação e Serviço Social. As áreas de Educação e Educação Física totalizam nove das treze publicações. Outro dado interessante é sobre os estados brasileiros que produziram tais trabalhos: Espírito Santo; Rio de Janeiro; São Paulo; Pernambuco e Rio Grande do Sul. O estado em que mais apareceram dissertações na pesquisa foi o de São Paulo.
Os artigos de revista totalizam trinta e oito publicações, sendo que seis destas são de revista não científica e trinta e duas de revista científica. A revista não científica é a “Revista Jogos Cooperativos” que pode ser encontrada no site www.jogoscooperativos.com.br e que auxilia leigos a entenderem esses jogos por ter uma organização didática de conteúdo. Quanto aos artigos de revista científica, 72% são nacionais e 18% são internacionais produzidos na Argentina, Costa Rica, México e Venezuela. As áreas de conhecimento constituintes dos artigos são: Psicologia, Educação, Educação Física, Sociologia e um Multidisciplinar com autores de Educação Física, Psicopedagogia e Educação Infantil. A área de Psicologia está presente em metade desses artigos.
Outro tipo de artigo encontrado são os apresentados em congressos. Essa categoria possui quinze publicações no acervo. Os artigos de congressos nacionais representam 80%, enquanto os internacionais 20% (Canadá e Espanha). As áreas de conhecimento contribuintes são: Psicologia, Educação e Educação Física. A área de Psicologia possui 67% da contribuição para esses artigos. Nota-se que a Psicologia tem optado por publicações de artigos de revista em congressos, enquanto Educação Física destaca-se nas dissertações de mestrado e projetos educacionais do PDE no Paraná.
As monografias encontradas são todas sobre jogos cooperativos e sete no total. Duas delas são para o título de especialista em jogos cooperativos oferecido pela UNIMONTE (Santos-SP), o que denota a importância crescente da temática no país. Outras especializações incluem Educação Infantil, Psicomotricidade e Educação Física Escolar, por exemplo.
Um trabalho de conclusão de curso (TCC) foi encontrado na área de Educação Física na Colômbia sobre o efeito dos jogos cooperativos na resolução de problemas em crianças da quinta série. Dois artigos de site foram encontrados e se caracterizam por terem sido escritos para o site. Um deles trata da importância de se ter espaço para o jogo no cotidiano e outro sobre o que são os jogos cooperativos, para que servem e como se deve jogá-los. Um capítulo de livro também foi localizado, o capítulo é da autoria de Carlos Velázquez Callado extraído de um livro com compilação de vários autores. Duas apostilas explicativas dos jogos cooperativas também foram encontradas com algumas sugestões de jogos para aplicação.
Vale dizer, ainda, que as publicações encontradas trataram a cooperação, a competição e os jogos cooperativos como conceitos teóricos que foram de interesse particular da pesquisa ora relatada. A seguir, descrevemos como a maioria dos trabalhos encontrados os definem e os relacionam.
Encontra-se em grande parte da literatura sobre jogos cooperativos uma separação e uma oposição entre cooperação e competição. Assim define Correia (2006) ao afirmar que a cooperação é uma referência à participação das crianças nos jogos, mostrando aumento da colaboração, da solidariedade, da amizade e do respeito entre elas, assim como uma melhora na interação social delas. Já a competição para o autor, é um fenômeno cultural e humano, e não constitutivo do biológico. Constitui-se na negação do outro. Essa definição foi baseada nas idéias de Humberto Maturana (citado em Correia, 2006) conhecido por combater o mito da competição, o qual afirma que a natureza da espécie humana é competitiva. Essa visão é compartilhada pela grande maioria dos autores.
Porém, há autores que afirmam o contrário, que ambas são necessárias e complementares. Exemplo desse pensamento são as autoras Zan e Hildebrandt (2005) que colocam a cooperação com um pré-requisito para competir, pois as crianças precisariam cooperar para competir. Para jogar competitivamente, a criança precisa concordar, obedecer e aceitar as regras e suas conseqüências, e estes requerem cooperação. Inclui-se aí também a negociação de estratégias e a divisão de experiências com os demais.
Alguns autores como Kohn (1992), discorrem também sobre a associação comum dos conceitos de competição e agressividade e inferem que competição e agressividade não são sinônimos – definem competição como “jogar para ganhar” e agressividade como “tratar outras pessoas rudemente, de maneira dura, machucar e ser injusto”, então há possibilidade de jogar um jogo competitivo sem necessariamente ser agressivo (Zan & Hildebrandt, 2005).
Para Cortez (1996) cooperação e competição não podem ser entendidos como duas posições opostas ao longo de uma dimensão. Pois, não é um simples comportamento cooperativo, e deve ser levado em consideração que este envolve características dependentes de situações.
Um ponto de vista sistêmico e holístico sobre esses conceitos é o das autoras da área de Psicologia do desenvolvimento Palmieri e Branco (2003, 2004, 2007). A perspectiva teórica adotada por elas valoriza os aspectos sócio-culturais, afetivos, cognitivos na análise das diferentes modalidades de interdependência humana. Afirmam que a cooperação e a competição constituem aspectos de um mesmo fenômeno relacional, a depender do contexto e do valor adaptativo de cada tipo de ação. Ambos os comportamentos estão a serviço de objetivos individuais que vão sendo constituídos em contextos grupais, que ora favorecem (não determinam) a cooperação, ora a competição. Desta forma, o indivíduo estará sempre maximizando suas possibilidades de adaptação ao ambiente, caracterizado por uma cultura ou situação específica. Cooperação e competição são considerados padrões de interação social específicos que integram o sistema motivacional de uma pessoa – orientação para crenças, valores e objetivos individuais (Palmieri & Branco, 2004).
Assim, para as autoras, o primeiro passo na investigação da motivação social consiste em reconhecer e analisar sob diferentes ângulos, a heterogeneidade da motivação humana e dos contextos culturais nos quais os indivíduos se circunscrevem. Adotar uma postura dinâmica e dialógica quanto à motivação social, ou seja, não adotar categorias universais e estáveis na explicação dos fenômenos desenvolvimentais (Palmieri & Branco, 2004).
Os Jogos cooperativos, particularmente, são enfocados como instrumento educacional. Almeida (2006) traz, por exemplo, uma visão completa e interessante sobre os jogos cooperativos inseridos no contexto escolar. O autor coloca os princípios dos jogos cooperativos na educação como sendo: 1. O regionalismo - o jogar cooperativo resgata o conhecimento e as experiências do grupo de participantes, propondo uma recreação de diferentes atividades. Também associa e re-integra o que é regional ao universal, manifestando a consciência de que há muitas partes, mas só um todo; 2. A co-educação – os professores, os mediadores lúdicos e os pais têm um papel de interlocutores, incentivando a construção conjunta das regras e estruturas dos jogos cooperativos. As crianças, os adolescentes, adultos e terceira idade assim, trocam informações que auxiliam no processo de autoconhecimento, transformação e integração social; 3. A emancipação – cada ser humano envolvido com o jogar cooperativo é motivado a se expressar com espontaneidade, liberdade e responsabilidade. O exercício de autonomia é promovido pela tomada de consciência e ação criativa que transformam o jogo e brincadeiras neles representadas; 4. A participação – o jogar cooperativo conta com a participação de todos sendo respeitadas as suas individualidades. As diferenças de habilidade, sexo, raça, cultura, religião, posição social, etc., são considerados como pequenas pontes que servem para conectar e reunir uns com os outros. Todos são estimulados a serem criativos e transformadores; 5. A totalidade – o jogar cooperativo busca despertar e resgatar a cooperação em três níveis interdependentes: consigo mesmo/ com os outros/ com o ambiente. Neste sentido, o jogar cooperativo é um processo dinâmico de percepção e vivência da íntima relação entre parte-todo, micro-macro e individual-grupal (Almeida, 2007).
Contra a corrente de que a competição esteja associada à agressividade, e que a cooperação diminui tal fenômeno, está a pesquisa de Zan e Hildebrandt (2005) em que foi encontrado em duas diferentes análises – a amostra dos comportamentos e o código de Selman para avaliar as interações sociais – que ambos os jogos aparentam ser igualitariamente cooperativos. As autoras afirmam que seus achados desafiam Kohn (1992) e suas afirmações de que jogos competitivos proporcionam distanciamento dos jogadores e até mesmo desumanização destes para o oponente não sentir culpa. Logo, não há um consenso geral sobre o papel da competição e da cooperação e suas implicações. No entanto, é indiscutível que esses valores podem ser promovidos de acordo com a posição que se assume numa dinâmica interativa proporcionada pelos jogos.
Nesse contexto escolar de promoção de valores, os autores Brandl Neto e Lima (2002) consideram que a escola seria o local ideal para se oportunizar o jogo cooperativo. Assim, o processo de jogar cooperativamente deve ser dividido em ação – reflexão – ação melhorada, pois a principal característica do jogo cooperativo é não ter fim e ser um processo dialético. Afirma que é importante a facilitação desses jogos por meio do docente, pois facilitar não é apenas deixar que ele aconteça, mas sim estar interferindo, ajustando, contando com a colaboração do grupo que joga e dando o feedback da atividade que se deve realizar após o jogo.
Discussão
Os resultados da pesquisa permitem visualizar como a temática dos jogos cooperativos tem se delineado e as novas perspectivas que se abrem de forma promissora para a sua utilização no meio escolar, principalmente em âmbito nacional. As notações bibliográficas mostraram, de forma geral, que os jogos cooperativos permitem uma troca de sentimentos e de que entremos em contato íntimo com nossas emoções para potencializar as habilidades humanas básicas como amor, alegria, criatividade, confiança, respeito, autonomia, paciência, humildade, etc. Tem a intenção de diminuir as manifestações de agressividade nos jogos, estimulando sensibilização, cooperação, comunicação e solidariedade. Os participantes jogam para superar desafios, conflitos, obstáculos e não um indivíduo ou o coletivo. A motivação está centrada na participação e no alcançar de um objetivo comum.
Notou-se que os autores nacionais mais citados nas bibliografias localizam-se na área de Educação Física escolar, mesmo que no exercício desse cotidiano, ainda permaneça enraizado o mito da competição com a esportivização da área (Correia, 2006, 2007; Brotto, 2000). Mas esta área vem destacando autores de referência sobre os jogos cooperativos e tem sido o campo do conhecimento responsável pela maior produção de trabalhos no assunto. Esses dados demonstram que além de ser uma área precursora e disseminadora dos jogos cooperativos, tem-se ainda hoje um domínio sobre as produções bibliográficas do tema, já que “não podemos negar que a Educação Física tem avançado e se esforçado teoricamente para superar os modelos competitivista e tecnicistas dominantes” (Correia, 2006, p. 150).
Os resultados também apontam que autores da Educação Física, em sua maioria, têm-se dedicado aos jogos cooperativos aplicados à Educação Fundamental e Média. Apesar da proposta da pesquisa ser de aplicação na Educação Infantil, esta foi localizada com certo percentual significativo em relação às outras (21%), pois parece não ser o objeto de estudo prioritário nessa área de conhecimento.
Vimos também que com a disseminação dos jogos cooperativos, outras áreas de conhecimento começam a adquirir expressão, além da Educação Física, como a Educação, a Psicologia, a Sociologia, até mesmo algumas áreas exatas, como foi encontrado em Ciência da Computação e Estatística. De particular interesse na pesquisa é a Psicologia e suas contribuições que priorizam em especial a Educação Infantil, pois vemos particularmente na escola um campo fértil para o estudo e aplicação dos jogos cooperativos enquanto um recurso educacional, tendo em vista sua função de contribuir na formação integral dos alunos.
Chamamos a atenção, pois, para o papel do educador que, através dos jogos cooperativos, podem estimular seus alunos a participar de atividades de cunho cooperativo calcadas na autonomia e responsabilidade social e, trabalhar no campo dos valores sociais para a expressão da solidariedade, respeito mútuo, compaixão e senso crítico. Os jogos cooperativos, segundo as publicações consultadas, aparecem como uma nova tendência e um exercício de oposição à competição, à dominação, às injustiças e às desigualdades nas relações sociais a que as pessoas estão submetidas na sociedade dita civilizada.
Conclusão
Nas últimas décadas tem emergido interesse em estudar e definir os construtos teóricos que abrangem a cooperação e a competição e, os jogos cooperativos têm servido a esse fim. A grande contribuição das publicações na área da Educação Física escolar apontam que os contextos escolares expressam diversos modos de trabalhar com tais construtos, ao adotarem os jogos cooperativos como uma atividade educativa importante para promover interações e constituir valores na direção de uma sociedade democrática, justa, solidária e em paz.
Esses estudos trabalham com diferentes atividades que apontam novos modos de percepção e de compreensão da vida, das relações entre os seres humanos consigo mesmo e com seu ambiente social. No contexto escolar, as publicações mostram a importância do educador refletir sobre o tipo de suas interações que estabelece com os alunos, bem como sobre seu papel na co-construção de crenças e valores humanos tão essenciais para o respeito em relação ao outro.
Em conclusão, os autores apontam que os jogos cooperativos são divertidos, criativos e transformadores de liberdade humana e autonomia coletiva que tem por objetivo a propagação de cultura de paz. Segundo Almeida (2006), a educação para a paz trabalha para favorecer processos de desenvolvimentos igualitários que sejam compatíveis com o desenvolvimento pessoal, social e do meio ambiente e para promover um tipo de relação com o outro baseado na não competição, mas na capacidade de cooperar, constituindo-se em um valioso instrumento na formação para cidadania.
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