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A COMUNICAÇÃO NÃO-VERBAL NO ATENDIMENTO PSICOLÓGICO A PACIENTES PORTADORES DE ESCLEROSE LATERAL AMIOTRÓFICA EM ESTÁGIOS AVANÇADOS
Carolline Mara Veloso Rangel

Última alteração: 2012-07-25

Resumo


A COMUNICAÇÃO NÃO-VERBAL NO ATENDIMENTO PSICOLÓGICO A PACIENTES PORTADORES DE ESCLEROSE LATERAL AMIOTRÓFICA EM ESTÁGIOS AVANÇADOS

CAROLLINE MARA VELOSO RANGEL

Psicóloga – Mestranda – EERP/USP – Universidade de São Paulo

Introdução

Os atendimentos psicológicos exigem do profissional a atenção à diversos tipos de comunicação do paciente, desde os aspectos da fala (comunicação verbal), a aspectos do comportamento, entendidos como a comunicação não-verbal. Tratando-se de pacientes portadores de Esclerose Lateral Amiotrófica em estágios avançados, tal comunicação requer do profissional a sutileza do contato, o olhar, a atenção a todos os aspectos não-verbais apresentados pelo paciente.

De acordo com Lima (1979), a esclerose lateral amiotrófica culmina na atrofia progressiva dos músculos do corpo, deste modo a atingir membros superiores e inferiores, e também a fala.

O presente estudo contemplou a experiência no atendimento psicológico a dois pacientes em estado avançado de ELA, ou seja, que já não realizavam qualquer tipo de movimento no corpo a não ser o piscar de olhos. Visou também conhecer as formas de abordagem, as particularidades de cada contato, bem como as características comuns a esse tipo determinado de atendimento psicológico tão peculiar, com suas dificuldades e possibilidades. Buscou-se assim, demonstrar a importância do atendimento psicológico, e a necessidade da flexibilidade do profissional da psicologia para lidar com diversos pacientes, em diferentes estados do adoecer e da saúde mental.

Objetivo

O presente trabalho visa descrever a prática de atendimentos psicológicos domiciliares a pacientes portadores de Esclerose Lateral Amiotrófica, a fim de chamar a atenção para este tipo peculiar de atendimento ao qual o psicólogo pode ser chamado. Este trabalho foi realizado através de uma instituição de saúde privada do interior paulista.

Método

Os participantes do presente estudo foram dois, sendo um do sexo masculino e um do sexo feminino, em idade adulta. Trata-se de um relato de experiência a respeito das entrevistas realizadas com os participantes. As entrevistas semi-estruturadas foram utilizadas como instrumento para a presente pesquisa. Segundo Gil (1999), esta se configura como uma técnica eficiente para a obtenção de dados em profundidade acerca do comportamento humano.

Resultados

No presente estudo participaram dois pacientes, um do sexo masculino e um do sexo feminino. Os atendimentos ocorreram no domicílio dos pacientes, e aconteceram individualmente. O primeiro caso atendido foi um homem, 54 anos. O diagnóstico de Esclerose Lateral Amiotrófica havia sido feito há três anos. No momento do atendimento, o paciente já se encontrava sem qualquer movimento muscular. Sua única forma de comunicar se dava através do piscar dos olhos. O acompanhamento com o paciente teve a duração de dois encontros. O terceiro encontro foi marcado, porém não ocorreu, já que o paciente veio a óbito. Durante os atendimentos, o paciente apresentou uma riqueza grande de conteúdos. Saudou-me com um “Seja bem vinda”, dito através de piscadas de olhos diante da profissional nova que ia entrevista-lo. Falou sobre suas preciosidades de seu mundo, que incluíam a família, os amigos e a netinha, que segundo ele, era tudo em sua vida. Em outros momentos, chorava, expressando o desejo de morte. Este desejo era dito à profissional, através do piscar de olhos: “Quero morrer”. Ainda que através dessa frágil comunicação, foi possível ao paciente comunicar ao profissional seus sentimentos e sua angústia, e assim, ser acolhido.

A segunda participante é do sexo feminino e tem 55 anos. O diagnóstico havia sido realizado há seis anos no momento dos atendimentos. A paciente também se comunicava apenas com o piscar dos olhos. Foi entrevistada semanalmente durante três meses, após este período, entrou em um estado de confusão mental tão intenso que uma intervenção psiquiátrica foi necessária. A paciente parou de interagir e de comunicar-se. Durante os três meses em que foi atendida, apresentou inúmeros desejos, falou sobre sua história de vida como profissional, mulher e mãe. Contou-me a respeito dos momentos mais felizes de sua vida, a maternidade. Através do piscar dos olhos, comunicou à psicóloga entrevistadora inúmeras vezes o seu desejo de morrer, já que segundo ela, não suportava mais aquela situação à qual estava há seis anos. No último atendimento realizado, paciente já apresentava delírios, entretanto, por um momento comunicou à terapeuta que não gostaria mais dos atendimentos. Tal desejo foi respeitado, em última instancia, enquanto desejo de um ser humano, que ainda que privado de quase todas as suas faculdades físicas, apresentava ainda preservada sua capacidade de se expressar, mesmo que através do piscar de seus olhos.

Conclusões

Os casos aqui relatados de forma breve demonstram a fragilidade e a especificidade deste tipo de atendimento, a pacientes em estágios avançados de esclerose lateral amiotrófica, e que requerem do psicólogo as técnicas necessárias, mas também, a flexibilidade e manejo para aprender os diversos tipos de comunicação a cada paciente. O comunicar-se com palavras, gestos e até com o piscar dos olhos, pode vir a ser a forma singular daquela pessoa de expressar a subjetividade e as minúcias de seu mundo interno. Tais experiências enfatizam assim, a necessidade de grande preparo e formação do profissional psicólogo, que pode deparar-se com as minúcias de atendimentos onde um piscar de olhos pode revelar um mundo do outro ser humano.

Referências Bibliográficas

Gil, A.C. (1999). Métodos e Técnicas de pesquisa social. São Paulo: Ed. Atlas.

Lima, J. M.B. de. (1979). Contribuição para o estudo da esclerose lateral amiotrófica: aspectos clínicos,epidemiológicos e virológicos. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.


Palavras-chave


esclerose lateral amiotrófica, adoecimento, comunicação

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